Caríssimo La Fontaine,
Grande contador de fábulas, como foi possível que ao escreveres o teu livro, te esqueceste de uma história?
Qual? Passo a contar...
«Era uma vez uma formiga que se fartava de trabalhar.
E era uma vez uma cigarra que se fartava de cantar, dançar e divertir.
Chegou o Inverno e o tempo piorou bastante. A formiga trabalhou que se fartou e por isso conseguiu armazenar comida suficiente para passar um bom Inverno.
Mas a cigarra, por seu turno, como só se tinha divertido até fartar, não armazenou nada, e acabou por morrer, cheia de fome e cheia de frio.
Ora, dois dias depois desta morrer, o Inverno piorou ainda mais!
E com tanta chuva, a casa da formiga desabou, e ela também acabou por morrer...
E muitos outros animaizinhos também acabaram por morrer...
Foi um mau Inverno e ninguém esperava que aquilo acontecesse...
Os que sobreviveram chamaram àquele fenómeno: Inverno imprevisto.
E daí em diante, todos os Invernos foram tomados como imprevistos, pois tudo podia acontecer, mesmo que se esforçassem bastante.
Saber como iria ser o próximo Inverno não estava nas mãos deles...
E na verdade, durante os Invernos seguintes, houve sempre alguém que ficasse para trás. Quer quisesse, quer não.
É a vida...»
Então, meu caro La Fontaine, qual será a moral desta história?
Porque razão é que aqueles que merecem, às vezes, não obtêm recompensa? Porque razão é que aos "bons", às vezes, a vida é ingrata?
Será que é a vida a ingrata?
Enfim, porque existe o mal? Onde está a sua origem?
Como se resolve o mistério do mal?
Meu caro, não precisas de responder.
Já sei que não há resposta que nos valha.
Ou talvez até haja... não há é razões...
segunda-feira, junho 7
sexta-feira, junho 4
Carta suspensa
Novo dia, uma tarde.
Calor, sol, sombra e fresco.
Raramente me contento com o tempo que vai fazendo.
Não penso em nada, e nada escrevo.
Vazio e sem nada, escrevo.
As ideias mal esperam por se fazer sentir e ouvir,
mas nem as vejo, nem as ouço.
Mexo-me e pratico o nada que produz sinais e objectos.
As metafísicas estão ausentes
numa vivência momentanea de momentos bem passados
porque nada simbolizam e a nada dão sentido
senão a uma vida que se vive e vai vivendo
com tudo o que ela tem.
Cheio de vida, vazio de sentido
e mesmo assim contente e feliz.
Projectos adiados e planeados
para um futuro que se aproxima devagarinho.
Não tenho pressa.
– Passa tempo, passa, que há-de chegar a hora.
Quando chegares, cá estarei;
não há lugar algum em que eu possa fugir de ti. –
E mais uma linha escrevo
apenas para ajudar o tempo a passar.
Pode ser que fique mais contente
por escrever umas quantas palavras de nada
e tudo de nada.
Caparica, Agosto de 2007
Calor, sol, sombra e fresco.
Raramente me contento com o tempo que vai fazendo.
Não penso em nada, e nada escrevo.
Vazio e sem nada, escrevo.
As ideias mal esperam por se fazer sentir e ouvir,
mas nem as vejo, nem as ouço.
Mexo-me e pratico o nada que produz sinais e objectos.
As metafísicas estão ausentes
numa vivência momentanea de momentos bem passados
porque nada simbolizam e a nada dão sentido
senão a uma vida que se vive e vai vivendo
com tudo o que ela tem.
Cheio de vida, vazio de sentido
e mesmo assim contente e feliz.
Projectos adiados e planeados
para um futuro que se aproxima devagarinho.
Não tenho pressa.
– Passa tempo, passa, que há-de chegar a hora.
Quando chegares, cá estarei;
não há lugar algum em que eu possa fugir de ti. –
E mais uma linha escrevo
apenas para ajudar o tempo a passar.
Pode ser que fique mais contente
por escrever umas quantas palavras de nada
e tudo de nada.
Caparica, Agosto de 2007
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