segunda-feira, junho 7

Carta a La Fontaine

Caríssimo La Fontaine,

Grande contador de fábulas, como foi possível que ao escreveres o teu livro, te esqueceste de uma história?
Qual? Passo a contar...

«Era uma vez uma formiga que se fartava de trabalhar.
E era uma vez uma cigarra que se fartava de cantar, dançar e divertir.
Chegou o Inverno e o tempo piorou bastante. A formiga trabalhou que se fartou e por isso conseguiu armazenar comida suficiente para passar um bom Inverno.
Mas a cigarra, por seu turno, como só se tinha divertido até fartar, não armazenou nada, e acabou por morrer, cheia de fome e cheia de frio.

Ora, dois dias depois desta morrer, o Inverno piorou ainda mais!
E com tanta chuva, a casa da formiga desabou, e ela também acabou por morrer...
E muitos outros animaizinhos também acabaram por morrer...
Foi um mau Inverno e ninguém esperava que aquilo acontecesse...

Os que sobreviveram chamaram àquele fenómeno: Inverno imprevisto.
E daí em diante, todos os Invernos foram tomados como imprevistos, pois tudo podia acontecer, mesmo que se esforçassem bastante.
Saber como iria ser o próximo Inverno não estava nas mãos deles...
E na verdade, durante os Invernos seguintes, houve sempre alguém que ficasse para trás. Quer quisesse, quer não.

É a vida...»

Então, meu caro La Fontaine, qual será a moral desta história?
Porque razão é que aqueles que merecem, às vezes, não obtêm recompensa? Porque razão é que aos "bons", às vezes, a vida é ingrata?
Será que é a vida a ingrata?

Enfim, porque existe o mal? Onde está a sua origem?
Como se resolve o mistério do mal?

Meu caro, não precisas de responder.
Já sei que não há resposta que nos valha.

Ou talvez até haja... não há é razões...

1 comentário:

@ndrei@zul disse...

acredito que não existe "merecer". a bem dizer da verdade, não merecemos nada porque somos infinitamente imperfeitos e é apenas o toque de divindade que carregamos que nos permite aqui estar e ter tudo o que temos e que não merecemos. não sei se a vida é ingrata mas tenho a certeza que é injusta, pelo menos da forma como nós tendencialmente encaramos a justiça. mas não é por ser justa que cá andamos, nem pela mesma justiça que os "bons" fazem o bem. fazem-no porque acreditam que é esse o caminho, independentemente dos imprevisíveis invernos.

não sei, nem sei se quero perceber a origem do mal e muito menos resolvê-lo, tem que me bastar saber que ele existe e que tenho de "colocar os meios" para o combater e para lhe resistir, mas ainda não o faço, quero fazê-lo.

e penso que sei o que pensas e que este post é só (mais uma) provocação, mas eu gosto de lhes responder :)

baci**